Uma análise das perdas comerciais brasileiras para a China (2000-2009)

22 December 2010

Este artigo busca mensurar o resultado líquido da competição entre Brasil e China[1] no período compreendido de 2000 e 2009, em três mercados tradicionais para as exportações brasileiras de produtos manufaturados: Estados Unidos da América (EUA), União Europeia (UE) e Argentina. Além disso, também são calculadas as perdas da produção industrial do Brasil no mercado doméstico para os bens chineses.

As altas taxas de expansão da economia chinesa nesta década estiveram fortemente atreladas ao grande crescimento das exportações do país. Este bom desempenho exportador, por sua vez, não ocorreu sem afetar outros países no mercado internacional, entre eles o Brasil.

Os anos entre 2000 e 2009 compreenderam um período de aumento da competição com os chineses nos âmbitos interno e externo do Brasil. Este crescimento ocorreu por algumas razões: i) a entrada da China na Organização Mundial de Comércio (OMC); ii) a apreciação do câmbio brasileiro, principalmente após o ano de 2004; e iii) a grande competitividade chinesa que, entre outros elementos, assentou-se na desvalorização competitiva da moeda do país. Segundo estudos do Peterson Institute for International Economics[2] divulgados no início de 2010, o reminbi chinês está subvalorizado em 40%, ao passo que o real brasileiro está sobrevalorizado em 16%.

A combinação desses elementos resultou em um cenário amplamente favorável aos chineses na competição com o Brasil em EUA, UE e argentina, inclusive dentro do mercado nacional, conforme mostrado nas seções seguintes.

Resultados gerais da competição Brasil-China

A competição entre Brasil e China foi amplamente desfavorável para a economia brasileira, que sofreu perda líquida em todos os mercados analisados. Em uma década, a perda que alcançou US$ 18,2 bilhões, foi distribuída entre EUA (US$ 9,3 bilhões); UE (US$ 7,3 bilhões); e Argentina (US$ 1,6 bilhão). No mercado interno, o estudo mensurou que a competição entre Brasil e China resultou em uma perda líquida de US$ 15,2 bilhões para os produtores nacionais.

Em termos absolutos, as perdas do Brasil ocorreram de forma mais acentuada no mercado externo que no interno. Em termos relativos, os US$ 18,2 bilhões perdidos no mercado externo possuem maior representatividade (se comparados ao total de exportações), que as perdas de US$ 15,2 bilhões registradas no mercado interno (se comparadas ao total do consumo aparente brasileiro).

Outra observação relevante sobre as perdas no mercado interno diz respeito ao período em que houve maior concentração desses prejuízos. O estudo verificou que 72,8% do total de danos ocorreram no último biênio e se distribuíram em 16 setores - o dobro de setores em que houve perdas no primeiro período.

Perdas líquidas do Brasil para a China no mercado externo

Em linhas gerais, as maiores perdas do Brasil para a China nos mercados analisados ocorreram em setores[3] de maior valor agregado. Destes, três setores responderam por metade das perdas ao longo do período estudado. Por outro lado, os ganhos ocorreram essencialmente em setores de produtos intensivos em recursos naturais (peles, seda, fumo, óleos vegetais, etc) - exceção feita aos setores de aeronaves e químicos.

No geral, foi no setor de máquinas, aparelhos e materiais elétricos que se observou o maior deslocamento de mercado para a China: US$ 4,7 bilhões. Em segundo lugar, o setor de máquinas e aparelhos mecânicos registrou US$ 2,4 bilhões em perdas; seguido do setor de ferro fundido, ferro e aço, que totalizou cerca de US$ 2 bilhões em perdas para os chineses.

Os três mercados analisados diferem entre si quanto à magnitude e perfil da pauta exportadora. Assim, é importante detalhar os resultados agregados e verificar em cada mercado quais os setores em que se concentraram as maiores perdas.

Nove dentre os quinze setores analisados apresentaram o mercado estadunidense como o maior perdedor da competição chinesa, aproximadamente 40% do total das perdas. O setor em que se verificou o maior deslocamento do Brasil pela China nos EUA foi o de máquinas, aparelhos e materiais elétricos: 33,4% das perdas, um total de mais de US$ 3,1 bilhões. O segundo setor foi o de calçados, responsável por 14,5% do deslocamento de mercado nos EUA. Em seguida aparecem outros importantes setores para as exportações brasileiras, o de máquinas e aparelhos mecânicos e o de veículos e tratores, que somam juntos 17,7% das perdas. Vale dizer que esses quatro setores foram responsáveis por praticamente 2/3 das perdas líquidas para a China no mercado estadunidense.

Os dados de perdas para a China no mercado dos EUA reiteram um fenômeno amplamente discutido e constatado, qual seja, a primarização da pauta exportadora do Brasil ao país. Isto é, produtos primários ganhando participação nas exportações, em detrimento dos manufaturados. Em 2001 e 2003, o Brasil chegou a apresentar 77% de sua pauta de exportações para os EUA composta por bens manufaturados. Essa participação diminuiu nos anos seguintes, chegando a 60% em 2009.

O bloco europeu constitui hoje o maior destino das exportações brasileiras, aproximadamente o dobro das vendas realizadas para os EUA. Ainda assim, suas perdas líquidas foram inferiores àquelas observadas no mercado estadunidense, fato que não diminui a importância das perdas atingidas: US$ 7,2 bilhões.

Três setores concentraram 58,8% do total das perdas neste mercado: o setor de ferro fundido, ferro e aço teve 24,1% de participação sobre o total de perdas líquidas no mercado europeu, o que representou 89% do total das perdas brasileiras do setor. Em segundo lugar (19,1% de participação), o setor de máquinas, aparelhos e materiais elétricos respondeu por um deslocamento de mercado de quase US$ 1,4 bilhão em termos absolutos. Por fim, destaca-se o setor de máquinas e aparelhos mecânicos, que respondeu por 15,5% das perdas líquidas - US$ 1,1 bilhão em termos absolutos.

Assim como nos EUA e na UE, o setor de máquinas, aparelhos e materiais elétricos e o setor de máquinas e aparelhos mecânicos encontraram-se entre aqueles que sofreram um maior deslocamento na Argentina. O primeiro setor foi responsável por US$ 231 milhões em perdas, e o segundo por US$ 222 milhões. No entanto, nenhum setor perdeu tanto no mercado argentino como químicos orgânicos: US$ 336,5 milhões. O setor de veículos, no qual a Argentina constitui o principal mercado brasileiro, correspondeu ao 4º setor com maior deslocamento, responsável por US$ 185 milhões das perdas líquidas.

É importante destacar que, apesar das perdas no mercado argentino representarem a menor fatia no total de deslocamentos calculados, não se pode negar que o simples fato de o Brasil ter sido deslocado pela China em um tradicional mercado como o é a Argentina, é suficiente para chamar a atenção. A proximidade geográfica e tarifas preferenciais deveriam, em tese, deixar o Brasil mais imune a perdas neste mercado, o que não ocorreu - como mostraram os dados apresentados.

Perdas no mercado interno

A maior parcela das perdas brasileiras no mercado interno ocorreu na última comparação de biênios (2006-07 versus 2008-09). Tais perdas somaram US$ 11,1 bilhões, ou seja, 72% do total perdido no mercado interno na última década (US$ 15,2 bilhões).

Como no setor externo, os setores que mais perderam na competição com a China no mercado interno foram os intensivos em tecnologia. Cerca de 48% da responsabilidade pelo deslocamento total de mercado divide-se entre três setores. Coube ao setor de material eletrônico e aparelhos de comunicação 29% do total de perdas, para os chineses no mercado interno deste setor. O segundo setor com maior perda foi o de máquinas e equipamentos para escritório e informática, somando US$ 1,5 bilhão. Em terceiro, e com perdas localizadas exclusivamente na comparação 2006-07 versus 2008-09, o setor de máquinas e equipamentos teve um deslocamento de mercado de quase US$ 1,5 bilhão causado pela China.

Os resultados desses três setores são também corroborados pelos coeficientes de importação (CI), que medem a penetração dos produtos importados no mercado consumidor nacional. Dados divulgados pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostram que, no setor de material eletrônico e de comunicação, a penetração dos importados passou de 41% em 2006, para 44,6% do consumo aparente em 2009. No setor de máquinas para escritório e informática, o coeficiente foi de 40,3% para 50,5%. No terceiro setor citado acima, o de máquinas e equipamentos, os importados passaram de 30,8% para 34,1% de market share no mercado interno.

Os resultados dos coeficientes mostram que a competição no mercado nacional desses setores está cada vez mais acirrada, e os dados obtidos com este estudo apontam a China como inequívoco responsável por estes deslocamentos.

Considerações finais

A variável cambial é, sem dúvida, uma das determinantes para a competitividade das exportações de um país. Se mantida em um patamar competitivo, ela também auxilia na proteção das cadeias produtivas industriais, podendo ser um importante motor de desenvolvimento.

A interação entre o câmbio brasileiro sobrevalorizado nos últimos anos com a subvalorização da taxa de câmbio chinesa implicou significativas perdas no exterior para o Brasil, mas demonstrou também que os danos agora se espalham por toda a economia e podem trazer uma desarticulação da indústria nacional brasileira. Atualmente, a China representa 8,1% do consumo de máquinas do Brasil - em contraste com 1,7% em 2001 - e 22,8% do consumo interno de equipamentos de informática - quando, nove anos antes, este valor era de 2%.

Outros elementos ajudam a explicar a perda de competitividade do Brasil no exterior (inclusive em mercados tradicionais como o argentino) e os ganhos chineses dentro do Brasil, por exemplo, a alta carga tributária sobre o valor agregado no país e a elevada taxa de juros interna.

Seja como for, tais perdas constituem importante alerta ao setor industrial do Brasil e refletem a necessidade de reformas estruturais que restabeleçam a competitividade das exportações e incentivem menos as importações, sob pena de o país reduzir cada vez mais o conteúdo nacional de sua produção.

* Coordenador da Área de Análise Econômica do Comércio Exterior na Fiesp.

** Analista econômica de comércio exterior na Fiesp.

*** Analista econômico de comércio exterior na Fiesp.

[1] A metodologia utilizada tem como base o estudo: Baptista, Jorge Chami. Desvalorização Cambial e as Exportações Brasileiras para os Estados Unidos. In: Revista Brasileira de Comércio Exterior, No. 70, jan-mar. 2002. Disponível em: < http://www.funcex.com.br/material/rbce/70-Exportacoes-JCB.pdf>. Mais precisamente, os resultados mencionados neste artigo têm por referência a metodologia de Ganhos e Perdas de competitividade, em que as exportações do Brasil para os três mercados foram comparados nos biênios entre 2000 e 2009. De acordo com o método, o Brasil deveria manter em um biênio o mesmo market-share do biênio anterior, caso contrário seria atribuída a perda aos competidores. O mesmo método foi aplicado ao mercado interno do Brasil.

[2] http://www.iie.com/publications/pubs.cfm

[3] Nesta seção, entende-se por setor o agregado representado pelo capítulo do sistema harmonizado, isto é, aqui trata-se o nível SH 2 dígitos como setor, o que totaliza 99 setores.

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